Primeira voz

Há vinte anos atrás, em 10 de dezembro de 1998, o escritor José Saramago, recebeu o Prêmio Nobel de Literatura. No seu discurso, na cerimónia de entrega do prémio, criticou a apatia mundial diante da tragédia alheia: “a mesma esquizofrénica humanidade que é capaz de enviar instrumentos a um planeta para estudar a composição das suas rochas, assiste indiferente à morte de milhões de pessoas pela fome. Chega-se mais facilmente a Marte do que ao nosso próprio semelhante.” A série Fuga pretende propor uma reflexão sobre essa indiferença. As cinco pinturas abstratas apresentam no verso um retrato – invisível a olho nu – de mulheres e crianças que foram obrigadas a deixar seus países devido a conflitos políticos ou catástrofes naturais. O título de cada uma das pinturas – Haya, Ewa, Ayeesha, Chime e Casho – corresponde a um nome feminino utilizado, respetivamente, em cada um dos cinco países de onde vêm 2/3 dos refugiados de todo o mundo: Síria, Afeganistão, Sudão do Sul, Mianmar e Somália. Crises na Síria, no Afeganistão e no Sudão do Sul ocasionaram a deslocação de mais de 11 milhões de pessoas – mais de metade da população de refugiados em todo o mundo. Enquanto isso, conflitos políticos e catástrofes climáticas em Mianmar e na Somália forçaram milhões de pessoas a abandonar seus lares.

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Haya

Desde o início da guerra, em março de 2011, a crise na Síria aumentou tragicamente. Em apenas dois anos, 1 milhão de pessoas foi forçado a sair das suas casas. Nos seis meses seguintes, outro milhão teve que fugir do país. Agora, sete anos depois, mais de metade da população que foi forçada a se deslocar tenta buscar segurança nos países vizinhos. São mais de 11 milhões de pessoas em fuga, incluindo os 6,3 milhões que já conseguiram cruzar a fronteira do país.

Ewa

Anos de desemprego, insegurança e instabilidade política levaram à migração massiva do Afeganistão. Aproximadamente 2,6 milhões de afegãos foram forçados a deixar o país, enquanto mais de 1 milhão continua a viver numa prolongada deslocação interna. Durante o ano de 2017, a violência fez com que uma média de 1.100 pessoas por dia – a maioria mulheres e crianças – fossem obrigadas a deslocar-se. Atualmente no Afeganistão, mais de metade da população que se deslocou por razões políticas, fê-lo pelo menos duas vezes.

Ayessha

A maior crise de refugiados na África é no Sudão do Sul. Mais de 4 milhões de pessoas foram arrancadas de suas casas, desde o início da brutal guerra civil em 2013. Cerca de 2,4 milhões de pessoas foram coagidas a cruzar as fronteiras dos países vizinhos, a maioria delas mulheres e crianças. A guerra ininterrupta, as inundações e a seca pioram a cada dia. Em todo o país há falta de água potável, alimentação, abrigo, assistência médica, saneamento e proteção.

Chime

Desde que a violência começou no norte de Mianmar, em agosto de 2017, mais de 900.000 Rohingya fugiram para o sudeste de Bangladesh. A velocidade e a escala do influxo, ao longo de um período de três meses, colocaram uma pressão tremenda nas comunidades anfitriãs do país. Pelo menos 1,3 milhões de pessoas – entre os refugiados Rohingya e pessoas das comunidades anfitriãs de Bangladesh – dependem de assistência humanitária para atender às suas necessidades básicas. Mais de metade são crianças.

Casho

Mais de duas décadas de conflitos políticos e ameaças naturais, como secas prolongadas e enchentes, levou quase 1 milhão de somalis a fugir para campos de refugiados, enquanto outros 2,1 milhões permanecem deslocados dentro do país. Cerca de 2,5 milhões de pessoas não conseguem suprir suas necessidades diárias de alimentos, incluindo mais de 300.000 crianças que sofrem de desnutrição aguda. Quase metade do país precisa de assistência de todos os tipos.